terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Origem


Não é fácil criar.
Sê-lo-ia talvez se antes não fora preciso criarmo-nos também. Mas é fundamental para a veracidade de todas as nossas criações que sejamos primeiro verdadeiros com nós próprios. E é árdua a tarefa de nos inventarmos. Constantemente sujeita a influências externas que por vezes vamos assimilando, até mesmo crendo, como partes de nós.
É complicado apagarmo-nos..., começarmo-nos do nada quando já muito fomos, quando tanto mais queremos ser.
Talvez se soubéssemos que há muito nos criámos, quando ainda não havia tempo que nos iludisse ou espaço físico que nos dispersasse, deixássemos de tentar percebermo-nos no que jamais seremos, de lutar por construir um ponto de partida que nos leve a terminarmo-nos.
Na verdade não temos fim. E o início de nós... Bem, esse sabê-lo-emos todos um dia... quando não mais houver dias. Não, não é de morte que falo. É de um estado diferente de consciência, menos sólido mas mais uno, menos realista mas mais verdadeiro. Um estado conjunto de almas sem quaisquer estados.
Falo do que o pensamento não nos permite imaginar e do que o sentir não nos deixa sentir. Falo do que sou, do que somos, exactamente por não ser capaz de saber sê-lo, porque em mim não consigo comportar a ideia de reduzir-me ao que aparentemente vou sendo, mesmo quando me abstraio quase por completo do mundo e de mim mesma, numa busca incessante de encontrar-me dentro e fora de tudo quanto existe.
Não, não é fácil criar..., criarmo-nos.
É doloroso o processo de nos retrocedermos para podermos avançar. Ridícula a sensação de existência quando é tão demasiadamente ténue a linha entre o visível e o invisível, o indizível.
E eu já me vi sem que pudesse deveras ver-me..., sem que alguma vez me tivesse dito.
Sei-me mesmo quando sei que jamais me saberei ser enquanto puder pensar-me, enquanto julgar sentir-me.
Se existo de facto é num ponto sem nome da existência, nesse mesmo ponto onde não sou porque nada é, onde somos porque nos criámos sem ter com que nos criássemos.
E a minha maior criação será talvez mesmo essa... Saber que já nada poderei criar porque jamais poderei, de novo, criar-me! 

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Sítio de mim



Persigo sóbria de mim, embebida em ti, as paisagens de um momento de sonho.
São verdejantes os campos onde cultivo o que sinto por ti, cristalinas as águas em que reflicto a tua imagem.
Como plano de fundo o arco-íris enquadra as nossas essências que se misturam numa coloração própria, singular de um beijo em que tanto se sente.
O céu... esse é negro, repleto de estrelas, pedaços de nós, espelho perfeito do profundo, das ilusões que vivo e revivo em mim quando te imagino. Contraste temporal onde a noite abraça o dia num só espaço, na nossa alma.
Fossem todas as emoções este sentir-te em mim tão emotivamente, este inspirar tranquilo do ser onde és tudo... Norte e Sul sem direcção, brisa suave e vento forte, maré sem gravidade, contrário espiracional do pensar-te.
E és sombra mesmo no escuro total de mim mesma..., luz da fantasia de cada passo que dou de encontro à felicidade de ser em ti.
Púdessemos nós evaporarmo-nos do mundo, abrir as asas e voar pelo universo uma da outra... longe de tudo e de nada..., saboreando somente o sorriso eterno de cada olhar em que por tanto nos perdermos tanto nos encontrássemos!
Um dia, meu amor... levar-te-ei ao colo até ao fim do caminho e aí adormeceremos na paragem do tempo, na realidade de um sentir infinito, no mundo que em mim criei para ti...

(Não temas o que te espera nesse mundo, o que em mim te espera... porque eu só quero fazer-te feliz! =) Amo-te, AB!)