Não é fácil criar.
Sê-lo-ia talvez se antes não fora preciso criarmo-nos também. Mas é fundamental para a veracidade de todas as nossas criações que sejamos primeiro verdadeiros com nós próprios. E é árdua a tarefa de nos inventarmos. Constantemente sujeita a influências externas que por vezes vamos assimilando, até mesmo crendo, como partes de nós.
É complicado apagarmo-nos..., começarmo-nos do nada quando já muito fomos, quando tanto mais queremos ser.
Talvez se soubéssemos que há muito nos criámos, quando ainda não havia tempo que nos iludisse ou espaço físico que nos dispersasse, deixássemos de tentar percebermo-nos no que jamais seremos, de lutar por construir um ponto de partida que nos leve a terminarmo-nos.
Na verdade não temos fim. E o início de nós... Bem, esse sabê-lo-emos todos um dia... quando não mais houver dias. Não, não é de morte que falo. É de um estado diferente de consciência, menos sólido mas mais uno, menos realista mas mais verdadeiro. Um estado conjunto de almas sem quaisquer estados.
Falo do que o pensamento não nos permite imaginar e do que o sentir não nos deixa sentir. Falo do que sou, do que somos, exactamente por não ser capaz de saber sê-lo, porque em mim não consigo comportar a ideia de reduzir-me ao que aparentemente vou sendo, mesmo quando me abstraio quase por completo do mundo e de mim mesma, numa busca incessante de encontrar-me dentro e fora de tudo quanto existe.
Não, não é fácil criar..., criarmo-nos.
É doloroso o processo de nos retrocedermos para podermos avançar. Ridícula a sensação de existência quando é tão demasiadamente ténue a linha entre o visível e o invisível, o indizível.
E eu já me vi sem que pudesse deveras ver-me..., sem que alguma vez me tivesse dito.
Sei-me mesmo quando sei que jamais me saberei ser enquanto puder pensar-me, enquanto julgar sentir-me.
Se existo de facto é num ponto sem nome da existência, nesse mesmo ponto onde não sou porque nada é, onde somos porque nos criámos sem ter com que nos criássemos.
E a minha maior criação será talvez mesmo essa... Saber que já nada poderei criar porque jamais poderei, de novo, criar-me!