Lembro-me bem daquela noite..., daquela que viria a ser a primeira noite do resto da minha vida.
Lembro-me de tentar com todas as minhas forças manter o choro, que me fazia soluçar por dentro, silencioso para que não o pudesses ouvir, mas pelos meus olhos as lágrimas teimavam em escapar-me.
Até essa noite adormecêramos e acordáramos sempre agarradas uma à outra, mas nesse dia não...
Lembro-me de te ouvir a respiração mudar, havias por fim começado a dormir. Eu, estava mais desperta que nunca..., faltava-me o calor do teu corpo no meu para conseguir fechar os olhos e estes doíam-me de cansaço.
Levantei-me, sem fazer barulho, e fui tomar um duche. Pensei que era quanto bastasse para refrescar as ideias..., mas a dor de ter perdido escorria-me pela face com mais pressão que a água.
À mente vinham-me constantemente as imagens de todos os duches que ali havíamos tomado também em conjunto, de como os nossos corpos insistiam em procurar-se mesmo quando alguém nos esperava na sala porque íamos sair e nos dizia "despachem-se". A verdade é que nunca soube resistir-te nem tu a mim. Nessa noite isso finalmente mudara.
Não havia lugar algum onde não te pudesse sentir, porque era em mim que ainda estavas.
Quis que o meu pensamento parasse, que o meu coração deixasse de bater, quis deixar de existir...porque sem ti eu não existia de qualquer forma.
Fui até à sala, deitei-me no sofá e lembro-me de me sentir um pouco mais tranquila. Afinal de contas, se eu morresse naquele instante, a minha vida teria valido a pena e eu tinha sido verdadeiramente feliz. Tu tornaras o meu sonho realidade.
De repente voltei a aperceber-me que ias deixar de fazer parte da minha vida e os sentimentos tomaram posse de mim uma vez mais.
Lembrei-me das noites em que adormecêramos também ali, no sofá, abraçadas, depois de uma sessão de cinema ou de fazermos amor... quando os nossos corpos nus transpiravam ainda enrolados um no outro a emoção de instantes antes terem sido um só enquanto nós percorríamos ainda ao de leve, olhando-nos olhos nos olhos num momento eterno, as peles mais sensíveis de nós..., vagueando num mundo que não pode ser dito, mas que quem nos visse o sorriso o adivinharia. Conheci por Lisboa inteira cada poro teu, cada gemido ou grito de prazer que em ti eu provocava ou causava e tu, conheceste os meus. Éramos uma da outra e o ritmo esse fora sempre o mesmo...só nosso.
Chegáramos ao fim de um tempo que eu não tinha conseguido determinar. Se me tivessem perguntado na noite em que te conheci até quando duraria o nosso amor eu teria respondido "uma eternidade de eternidades". Nunca consegui imaginar-me a viver longe de ti, sem ti, nem por um segundo que fosse... E a verdade é que mesmo hoje em dia, agora que vejo aquela noite de uma forma mais calma, continuo a viver contigo em todos e cada um dos instantes de nós.
Tentei adormecer a alma num sonho de estar ainda ao teu lado, mas foi um esforço vão.
E quando já me preparava para aceitar que não ia conseguir dormir naquela noite eis que te oiço a chamar-me: "Maria, que estás a fazer? Anda p'rá cama. Não tou a conseguir dormir."
'Como?! Estavas a dormir quando eu saí do quarto e ao contrário de mim não acordas durante a noite'. Pensei-o, mas não o disse. Preferi acreditar que também tu sentiras a minha falta, que também tu precisavas de mim para embalar os teus sonhos. Se foi isso ou não, não sei. Nessa noite deixei de saber o que pensavas, o que sentias. Ainda assim limpei o rosto, forcei-me a colocar um sorriso indiferente e fui ter contigo.
Deitei-me ao teu lado uma última vez... e lembro-me de ter pensado que não ia conseguir suportar uma vez mais o espaço que naquela noite entre nós se tinha criado, mas antes que conseguisse perceber o que havia de fazer já tu te tinhas chegado a mim e me abraçavas como em tantas outras noites.
Não consegui controlar-me e desatei novamente a chorar. Desta vez não consegui esconder-to... Olhaste para mim e vi que também tu choravas...
Há quanto tempo estarias também tu a tentar calar esse choro?!
Quis falar-te, dizer-te que estava tudo bem, que o que estávamos a sentir naquele momento era só um sonho mau e que íamos acordar a qualquer instante,... mas eu sabia que não tinha sequer ainda adormecido e não consegui dizer-te o que quer que fosse. Em vez disso, deste-me um beijo (daqueles que dizem tudo) e disseste-me: "Dorme bem, meu amor."
Não sei explicar, mas foi exactamente isso que me tranquilizou a alma.
Fechei os olhos ainda humedecidos, senti-te a olhar-me... e adormeci por fim.
(Tinha prometido não mais escrever para ti, mas esta semana disseram-me que ainda que eu continuasse a amar-te também já tinha desistido. Queria que soubesses que: É mentira! Nunca desisti de ti. Escolhi guardar-te, mas não desisti. És tu que me fazes adormecer todas as noites com um beijo e com aquele "dorme bem, meu amor". É por ti que acordo todos os dias e tento dar-me ao mundo, mesmo que por dentro continue ainda a chorar a tua ausência. É para ti que vivo. E nunca, mas nunca hei-de desistir!)
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