sábado, 19 de maio de 2012

Veracidade

Por vezes tenho um medo tremendo de escrever, porque sei que há instantes em que conseguiria pôr em palavras exactamente o que sinto. E nem sempre o que sinto faria sentido para todos quantos o lessem ou se o fizesse talvez lhes doesse tanto como a mim.
Às vezes peco por sentir demasiado, outras por sentir tão demasiadamente pouco. Como poderia eu explicar, a quem mo ouvisse se o dissesse, que quando não sinto que me sentes em ti da mesma forma deixo de sentir-te?! Como saberia dizer-te que quando te ausentas de mim há uma parte minha que se ausenta também contigo de ti?! Como mostrar-te que quando duvidas de nós sinto em mim, sem que mas contes, cada dúvida tua e eu mesma passo a duvidar?! Não haveria como e a haver a interpretação final das minhas palavras seria sempre tua e não minha, o que por si só corromperia a verdade delas em mim.
Dir-me-ias que sou eu a complicar o simples, a imaginar o que não existe. No fundo de ti sabê-lo-ás tão claramente quanto eu, mas jamais o admitirias por maior que fosse a vontade de me mostrares a tua mente em toda a sua complexidade e nem essa é assim tão forte nem tão grande a consideração que tens pela minha capacidade perceptiva de ti. Talvez também tu tenhas medo que eu consiga ver-te, saber-te, na totalidade de ti... Medo que eu sinta contigo tudo o que sentes e com isso me perderes.
Por isso, opto por calar-me, por sofrer no silêncio das minhas próprias divagações em vez de as soltar e magoar-te com a veracidade delas.
Prefiro dar-te a minha alma a quebrar, mesmo que a sinta por vezes ainda em pedaços, do que partir a tua.
Não serei eu a destruir-te os sonhos e as crenças. Serei sim o teu porto de abrigo, o teu refúgio quando o mundo te parecer demasiado sombrio e tiveres que fugir de ti própria.
Estarei aqui, mesmo te vendo a cada dia afastar um pouco mais de mim, de nós, a amparar-te cada desatino, a tentar mostrar-te com tudo de mim o quão a vida vale a pena, mesmo quando eu não for capaz de senti-lo. Dar-te-ei do universo os arco-íris, as estrelas, as fadas e os unicórnios... Serei o escudo protector das espadas que outrora te feriram e tentam ainda penetrar em ti.
E mesmo sabendo, quase em jeito de epifania, que poderá vir do teu arco a flecha que me despedaçará uma vez mais, abrir-te-ei o peito com valentia, consciente de ser esse um acto de cobardia e não de mártir, porque afinal um dos meus maiores medos é que deixes de acreditar no Amor pois é Ele a força que move todas as outras, o ponto de encontro entre o início e o fim de tudo. E Ele é tudo quanto posso dar-te de mim, porque é a minha única constante, tudo o resto me vem de fora para dentro. Ele não... Ele vem do mais dentro que há dentro de mim e por muito que o deixe sair continua a preencher-me cada espaço, cada vazio cheio dele, de ti.
Ainda assim não posso ser outra que não eu ou tão-pouco fingir-me ser só uma parte do que sou. Não posso nem sei ser um espelho do que sonhas quando não é comigo que sonhas.
E só tu sabes os teus sonhos. Só tu podes definir com exactidão a importância do que quer que seja em ti. A mim só me é permitido pensá-lo através do que me deixas sentir de ti, nada mais.
E é já tanto, tão mais do que consigo suportar, essa distância entre o que penso e sinto.
Por isso escrevo, apesar do medo, para fortalecer-me..., para tentar fazer sentido quando todos os meus sentidos estão dormentes de tanto sentir a tua ausência de mim, porque a verdade é que te sinto mesmo quando não me sentes.
Não! Não serei eu a deixar de amar-te!...
Ficarei do teu lado até te aperceberes que quem vês em mim não sou eu e quiseres partir.
E eu? Pois bem... eu sou completamente apaixonada por ti.
Sacrificaria, por ti, a minha alma para que descobrisses verdadeiramente a tua.
Sim, porque também eu sou tua..., só e toda tua. E o que sinto por ti não é mais nem menos do que tudo o que sinto em mim..., é, simplesmente, amor. Ainda assim não deixarei que sacrifiques tu a tua alma por algo em que queres acreditar, mas que não é verdade em ti.

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